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A escrita e a memoria

Fim natural de todas as coisas: o esquecimento. Tentamos dar um sentido á longa seqüência dos dias desenvolvendo formas alternativas de prolongar nossa memória. Isolado, o tempo não faz sentido. Navegamos nesse vasto oceano tentando encontrar sentido e rotas. Para isso aprendemos a fazer comparações. Um dia só tem nexo se comparado a outra e a outros e a outros e a outros... A primeira forma encontrada pelo homem para perpetuar sua história foi a tradição oral. Temos agônica necessidade - mercê de nossa absoluta impotência frente ao vazio que contemplamos nos vastos espaços antes de nosso nascimento e depois de nossa morte - de saber ao menos minimamente de onde viemos e para onde iremos. De onde viemos ? Na aurora da humanidade, essa questão era resolvida pelas consultas aos mais velhos - o que ainda acontece nas sociedades que convencionamos chamar primitivas. Decorre daí, talvez o respeito que os idosos recebem nestas sociedades: guardiães dos das tradições e das origens do grupo, são tratados com respeito e reverência. Bem diferente de nossa civilização que se pretende " moderna " e " ocidental ", que trata seus velhos aos pontapés, na maior parte das vezes considerado - os como unidades de produção que esgotaram suas vidas úteis e as quais se deve deixar encostadas em algum canto. E, pior, não lhes prestando atenção e respeito.

Mas não é sobre isso que se quer escrever. O escriba se desvia da rota, desencontra o caminho, divaga e perde o fio da meada. É necessário voltar ao rumo. Estamos contando a história de Nhô João de Camargo. O tratamento duro, indigno e triste que nossa sociedade ingrata dedica a seus idosos fica para outro trabalho. Vamos a Nhô João. Mas, o que ? O escriba quer impressionar o leitor mostrando sua erudição de almanaque e duvidosa concepção de mundo ? Nada disso. O que neste capítulo se pretende é falar da memória do homem e da importância da palavra escrita no processo de sua perpetuação.

A forma seguinte de tentar preservar a memória dos tempos passados foi a palavra escrita. Muito antes de Gutemberg, o homem já encontrava formas alternativas de registrar seus atos e seus dias em superfícies, iniciando pelas paredes das cavernas e evoluindo depois para os rolos de papiros.

A tradição dos antigos, até então preservada oralmente, encontrava agora uma forma mais segura de ser perpetuada. Com a ressalva que a fidelidade da transcrição dependia - como ainda depende em nossos dias - da boa-fé e da competência de quem a faz. Ou seja: não é impossível que uma boa história que venha de boca em boca há incontáveis gerações sofra mutilações irreparáveis nesse transcurso, podendo ainda, na hora de ser colocada no papel, ser submetida ás intervenções desastradas de um transcritor incompetente ou desonesto ou as duas coisas juntas, o que não ocorre. Pode acontecer até mesmo - como é o caso aqui - do autor contar uma historia tentando ser o mais isento possível, mas inapelavelmente apaixonado por seu assunto. 

Na verdade, o que se defende aqui é que a distância temporal envolve fatos e pessoas numa névoa que dificulta a compreensão dos relatos, mesmo tornando - se por confiáveis seus autores. Recentemente, o jornalista Carlos Heitor Cony tomou por exemplo o encontro, em uma gruta de Qumram, de uma cópia do livro de Isaías. Exposta com pompa e circunstância no Palácio do Livro, em Jerusalém, essa cópia, ao lado de originais até mais antigos, prova simplesmente que em determinada época existia um texto básico bastante similar ao que temos atualmente. Mas como provar que estes textos são realmente dos personagens a quem se atribui a autoria? Os escritos trazem invariavelmente a ressalva crítica: "de acordo com relato oral de..." Paulo talvez seja uma das exceções. Coincidentemente, o ex-perseguidor de cristãos teve sua revelação na estrada de Damasco. Não se trata aqui de colocar em dúvida o valor dos textos bíblicos. É entendimento do autor, problema exclusivamente dele, que responda pelas próprias convicções: é preciso fazer uma leitura basicamente espiritual da Bíblia, e aí reside toda sua força e toda sua importância. Tomada do ponto de vista puramente literário, isenta de qualquer sentido religioso ou espiritual, é a coletânea da literatura de um povo que em determinado momento histórico - o cisma cristã - fragmentou - se em duas correntes.

O que se afirma é que, quanto mais próximo estamos do fato no tempo, mais fácil se torna a apreensão de alguns de seus aspectos fundamentais. Dizemos alguns de seus aspectos pois a compreensão do todo é dificultada ou mesmo jamais pode acontecer, uma vez que a realidade é fragmentária e como tal se nos apresenta, sendo sua interpretação variável de indivíduo para indivíduo, conforme sua circunstância. É com absoluta e clara consciência desses aspectos e desses limitantes que se pretende contar esta versão da historia de João de Camargo Barros.

Sincretismo ou ótica de branco ?

A Capela do Senhor do Bonfim comporta diversas leituras. Uma delas, talvez a mais fácil, evidente e óbvia, é a de que ela obriga um sincretismo religioso perfeitamente definido, reunindo as informações presentes em um homem inculto e iletrado, movido por um fé confusa, que mistura elementos distantes e aparentemente incongruentes.

Mas, será que é isso mesmo? Será que essa não é uma conclusão tirada a partir de uma perspectiva "branca" dessa realidade? Será que nós conseguimos entender o que João de Camargo quis dizer? Ou será que nós - por não entendermos ou não nos interessarmos em entender - simplesmente classificamos esse rico - e diferente - universo na rubrica "sincretismo" e não se fala mais nisso? Fica sendo coisa de macumbeiro, assunto de gente ignorante. Não fica bem falar desse tipo de coisa na sala, pode chocar as visitas.

Afinal, a história do negro e ex-escravo João de Camargo Barros foi vivida no meio de uma imensa maioria de homens brancos, muitos dos quais serviu na condição de membro de casta inferior. Identicamente, sua história foi contada por brancos que nunca foram absolutamente iletrados, nunca foram escravos, nunca forma filhos de escravos, nunca moraram, comeram ou existiram de favor e nunca se sentiram na condição socialmente excluída como a que foi vivida por João de Camargo. Também nunca souberam o que é não ter memória, não tiveram os antepassados arrancados à força de sua terra natal, não experimentaram o que é desconhecer o verdadeiro nome e não ter outra opção que não a de aceitar a cultura e os valores que lhe foram impostos goela abaixo. Analisamos sua vida conforme nossos valores, conforme nossa ótica - e o que chamamos de sincretismo talvez ou certamente tenha outro nome e outro significado do ponto de vista dele, João de Camargo.

Vamos arriscar: é impossível tentar uma análise da Capela do Senhor do Bonfim sem contemplar junto a vida de Nhô João de Camargo. E, em essência, sua vida teve um sentido lógico e coerente. Sempre pregou, conforme ainda hoje pode ser lido na capelinha, o entendimento entre os homens. Sempre recomendou em primeiro o amor e o respeito a Deus e depois o amor e o respeito de um homem pelo outro. Nunca reagiu às criticas ou às acusações de curandeiro. Nunca recomendou que alguém deixasse sua crença pessoal para segui-lo incondicionalmente. Sempre recomendou aos que o procuravam pedindo curas que não perdessem jamais a fé em Deus, fossem ricos ou pobres. 

Sempre praticou a caridade e amparou os necessitados que o procuravam. Há Linearidade? O sim é óbvio: Nhô João nunca excluiu ninguém, talvez por ter sentido na pele o que é ser excluído, o que é viver como um excluído. Nhô João era filho de escravos e viveu uma vida relativamente dúbia: parte no seu própria estrato de origem, parte entre os patrões, servindo a filha de seu dono.

Assimilou, assim, valores de ambos os lados e não renegou nenhum deles ( se tivesse tido contato com elementos de outras culturas,d e outras crenças, certamente estariam representados ali na capela, para eles ali haveria lugar, como há, para todo mundo, feito coração de mãe ). Talvez por saber que o vale mesmo é a verdade de todos, de cada um de nós, independentemente de raça, credo ou classe social. Talvez por saber que o todo é formado por cada uma de nossas mutáveis verdades individuais e que a harmonia possível só possa advir pela via do entendimento, do reconhecimento da verdade do outro sem prejuízo da própria verdade - também importante, ímpar, preciosa, porque nossa.

Talvez seja possível afirmar que a capelinha abrigue tantas e tão variados imagens de santos e fotografias ( de padres, papas, políticos, militares, etc ) ao lado de outros elementos, por representar exatamente a filosofia pessoal de Nhô João de Camargo. cada pedra, cada azulejo, cada lajota parece ser o palco onde se entrecruzam mais de mil histórias; cada imagem, da menor à mais ornamentada, parece ser depositária de outras tantas histórias entrelaçadas de fé e esperança. A capelinha parece sempre ter lugar para mais uma imagem, mais uma fotografia, mais uma prece, mais um devoto, mais uma reflexão e até mais um curioso. Ali não é lugar para exclusões, e sim para inclusões. Reflete, talvez, a verdade de que na vida de Nhô João de Camargo usou-se e praticou-se muito mais o aditivo "e" do que o alternativo "ou".

Sincretismo? Do ponto de vista branco, sim. Mas também pode ser o esboço de uma harmonia possível ou sonhada. Depende dos olhos de quem vê. 

Considerações finais

Redator de fôlego curto, chega ao final deste trabalho pedindo que o leitor desconsidere suas muitas falhas. Não tive a pretensão de fazer um trabalho isento de erros ou historicamente preciso. Outros autores já o fizeram com mais competência do que eu.

O que tive a intenção de fazer foi, na verdade um apanhado geral a partir de uma série de reportagens feitas pelo jornalista Alcir Guedes - publicados no extinto semanário "A Cidade", em 1984 - e condensá-las desta forma, com a finalidade de trazer à luz um pouco da história do homem João de Camargo Barros, que oficialmente viveu entre os dias cinco de Julho de 1858 e vinte e oito de Setembro de 1942, a maior parte do tempo em Sorocaba. Posteriormente, vi-me na obrigação de ampliar as fontes de consulta, recorrendo a outros autores. A João de Camargo ainda hoje se atribuem graças e curas.

No fundo, talvez a grande questão seja acreditar ou não acreditar. Ideologia, naturalmente, é tomar a parte pelo todo. E eu formei minha opinião a partir de coisas que senti: crença é matéria extremamente subjetiva - e não acredito que se possa explicar objetivamente a fé. Acredito que a verdadeira crença não comporta uma explicação lógica. Entendo desta maneira: ou se acredita ou não se acredita. Portanto, este texto tem forma altamente opinativa e expõe uma parte da minha verdade, da minha forma pessoal de ver as coisas, com todas as minhas muitas imperfeições e até alguns dos meus episódios acertos. Uma verdade que formei tomando conhecimento de todo o bem praticado por esse homem que não fazia distinção entre pessoas e ajudava a todos. Um homem que vivenciou sua espiritualidade no sentido mais amplo e, na singeleza e simplicidade de sua mensagem, nos ensinou a colocar em prática as verdadeiras caridades e fraternidades cristãs, principalmente aos nossos irmãos desassistidos.

Desembarco do texto neste último parágrafo pedindo que João de Camargo continue a interceder por todos nós. Textos da História : Livro: A Harmonia Possível ou Sonhada. Autor:Alberto Dini

O fenômeno João de Camargo tem sido objeto de estudo de intelectuais importantes, como: José Carlos de Campos Sobrinho e Adolfo Friolli: "João de Camargo de Sorocaba" (a ser lançado pela Casa da Gávea juntamente com o Senac/SP), Florestan Fernandes: "O Negro no Mundo dos Brancos - Contribuição para o estudo de um Líder Carismático" (Difusão Européia - SP - 1964); Machado G.: "João de Camargo e seus Milagres"; Roger Bastide: "Estudos Afro-Brasileiros" (Ed - Perspectiva - SP - 1983); "A Macumba Paulista" (Biblioteca das Ciências Sociais - SP - 1985); Sandra Regina Corrêa: "O culto Religioso de Nhô João de Camargo" (Tese de Mestrado, Universidade Fed. Bahia); Gaspar A. F.: "O Mistério da Água Vermelha" Sorocaba - 1927). 

 

"Cafundó - A África no Brasil" de Carlos Vogt e Peter Fry Cia das Letras e Editora da Unicamp.

 

 
   
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