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Depoimentos

Aqui voc encontraraalguns depoimentos que foram colhidos pelo jornalista Alcir Guedes e publicados no semanrio "Jornal da Cidade", que circulou em Sorocaba no ano de 1984.

Jos Franco de Camargo, mais conhecido como Z Franco, estabelecido no Mercado Municipal, foi um dos entrevistados de Guedes. Ele contou que, certa vez, dois amigos foram capelinha procurar por Nh Joo, cada qual com um problema diferente de sade. Encontraram-no como sempre, de terno branco, chinelos e pernas cruzadas. Contaram-lhe cada um de seus problemas. Nh Joo pegou duas folhas iguais e deu uma para cada um deles, recomendando-lhes que fizessem ch e tomassem. Os homens foram embora e, no caminho, um virou-se para o outro e disse: "Nossas doenas so diferentes e nossas folhas so iguais.Eu no vou tomar ch nenhum", disse, jogando a folha fora.

O outro fez o ch e bebeu, com f e confiana. E ficou curado. O que havia jogado a folha fora, pelo contrrio, s fazia piorar. Sem sada, voltou a Nh Joo que lhe disse: "Cad sua f? Vai filho, ache a folhinha que voc jogou no mato, perto de um barranco, e com ela faa aquele ch que eu recomendei faz quase um ms. Tome que mec vai ficar completamente curado". O homem partiu. Z Franco conta que ele encontrou a folha ainda intacta, fez o ch, ficou curado e passou a ser mais um dos que reencontraram a f por intermdio de Nh Joo.

"Remdio do Nh Joo era folha de eucalipto e gua", confirmou na poca Isaura Oliveira Borges, que concedeu entrevista ao jornalista junto com seu esposo, Antnio Moreno e sua nora, Edwirges Florisbela Borges. Esta ltimo conta que, a pedido de seu pai, o mestre Avelino Soares, era para ser afilhado de Nh Joo. Mas o pedido foi recusado: ele no podia ser padrinho de ningum, por causa de suas curas e benzimentos. Mas ela lembra que pelo menos um padre, chamado por ela de Chiquinho, ia algumas vezes capela de Nh Joo para tomar um caf: "Meu pai algumas vezes tomou caf junto", garantiu ela.

Os trs entrevistados de Guedes garantiram: no adiantava mentir ou esconder coisas de Nh Joo.

A conferir em trs breves relatos:

Primeiro: uma mulher, antes de se consultar com Nh Joo, escondeu cem mil ris no campo, com medo de ter que deixar o dinheiro como esmola. Antes mesmo que ela falasse sobre sua doena, Nh Joo se antecipou e disse: "V buscar os cem mil ris que voc escondeu debaixo de um tijolo no campo e d esse dinheiro a um pobre. Depois disso volte aqui. Eu no cobro de ningum para curar". Ela fez o que lhe foi pedido e no dia seguinte estava curada, garantiu Isaura ao jornalista.

Segundo:uma me que estava com o filho doente foi at Nh Joo. Este tirou uma rosa de uma vaso e entregou me, dizendo-lhe que fizesse um ch com a flor e desse para o menino. A mulher no acreditou e jogou a rosa fora. No dia seguinte, o menino piorou e a me, desesperada, voltou a procur-lo na capelinha. Nh Joo disse: "V pegar a flor no barranco e faa o ch para seu filho, me sem f". Mais uma vez Isaura garantiu que a me voltou, encontrou a rosa e fez o ch para o menino, que ficou curado.

Terceiro, agora na verso de Antnio Moreno Borges, um sitiante rico relutava em levar sua filha doente capelinha, afirmando que no iria procurar macumbeiro algum. No entanto, o agravamento da sade da filha dobrou o ceticismo do sitiante, que foi procurar por Nh Joo. Este o atendeu, mas disse: "Mec muito teimoso. E eu no sou macumbeiro como mec falou ainda hoje de manhzinha quando tomava uma xcara de caf-com-leite e se aprontava para trazer sua filha". Depois disso, deu-lhe uma folha para fazer ch. Dias depois, o sitiante voltou com a filha. j curada, para agradecer a Nh Joo.

Antnio garantiu: o sitiante no s nunca mais chamou Nh Joo de macumbeiro, como fazia questo de divulgar para todo mundo a graa que tinha recebido das mos do ex-escravo.

A histria do terno do capito

Isaura contou uma srie de casos envolvendo Nh Joo ao jornalista Alcir Guedes. Comeamos com a histria do terno do Capito Grandino. Em um certo 1 de Janeiro, dia que a imagem de Nossa Senhora Aparecida deixa a igreja de Aparecidinha e segue nos ombros do povo at a Catedral de Sorocaba, Nh Joo queria participar da festa. Mas, em dificuldades, no tinha uma roupa decente para acompanhar a imagem Santa. Ir com seus andrajos seria falta de respeito. De repente, uma rpida olhada no varal da casa do Capito Grandino, para quem trabalhava, e o problema estava resolvido: balanando ao vento estava um bonito terno branco que lhe servia como se tivesse sido feito sob medida. No teve dvidas: apanhou o terno e, todo formoso e elegante, foi encontrar a Santa. Na volta, tirou o terno alheio, lavou, alisou bem e devolveu-o ao varal de onde o havia tirado. No dia seguinte, em vez de se enfezar, o Capito Grandino, dono do terno, riu muito quando soube da histria e deu a roupa de presente a Nh Joo, dizendo que a usasse sempre que fosse participar da romaria.

Ela lembrou ainda que Nh Joo tambm trabalhou para seu bisav, Francisco Antnio Santos de Oliveira, que foi casado com uma ndia "a quem deu o nome de Ana". Os laos que uniam a famlia de Isaura a Nh Joo foram ainda mais estreitados com episdio envolvendo seu filho Armentino. Aos trs anos de idade, o menino ainda no andava como as outras crianas, apenas se arrastava pelo cho ou engatinhava. Ela afirmou que cansou de levar Armentino a diversos mdicos e a benzedeiras, at que seu marido, Antnio, levou o menino para Nh Joo ver. "Daqui a trs dias sua mulher venha conversar comigo", disse ele. No dia aprazado, Isaura l esteve e ouviu estas palavras de Nh Joo: "Mec tem uma misso: fazer caridade. E mude de casa. Bem depressa". Depois de lhe dar algumas folhas para fazer banhos para Armentino, Nh Joo disse: "E tem mais. Na festa de So Joo, em Votorantin, visto o menino de So Joo e, com ele, acompanhe a procisso. Mec tem f? Se tem, vai dar tudo certo".

Isaura fez tudo o que Nh Joo determinou. E, segundo ela, a f fez milagre: durante a procisso, Armentino, devidamente vestido como So Joo, comeou a andar pela primeira vez em seus trs anos de vida, sob as lgrimas da famlia. Ela disse que deixou uma foto do filho na igreja So Joo Batista, em Votorantin, para perpetuar a memria da cura.

O jornalista Alcir Guedes contou ainda o caso do msico Avelino Soares, que era mestre da Banda Joo de Camargo e trabalhava na Fbrica Fonseca, na rua Francisco Scarpa. Ele morava com a famlia na vila de Nh Joo, na gua Vermelha, quando lhe saiu em furnculo debaixo do brao, o que o impossibilitou de trabalhar por mais de quinze dias. A famlia comeou a passar necessidades. Nh Joo, percebendo o que ocorria, mandou entregar uma compra para seu mestre da banda. Valente, Avelino tentou cortar lenha naquela mesma tarde, sem conseguir, pois estava sem foras no brao afetado.

Nh Joo, que tudo assistia de longe, mandou que algum fosse ajudar Avelino. Chamando-o, disse: "Mestre Avelino, vou curar mec com ajuda do Senhor. V at aquele campo e logo no comeo do caminho, assim pelo lado direito, arranque uma touceira de capim Favorito".Confuso, Avelino explicou que no conhecia esse tipo de capim. Nh Joo replicou: "V que mec vai por a mo exatamente em cima dele. Leve para sua casa, ferva nuns dois litros de gua e banhe o brao, no lugar do tumor. Faa isso hoje e amanh volte para o servio". No dia seguinte, Avelino estava curado: o furnculo vazara durante a noite e o brao readquirira sua fora e movimentos normais.

O trabalho de Guedes faz referncia ainda a um fotgrafo chamado Barbosa, que aos domingos e dias santos tirava retratos na porta da capelinha. Afinal, as pessoas que vinham visitar a capela, agradecer uma cura ou uma graa recebida, faziam questo de deixar uma fotografia em uma sala da igrejinha, fosse nos ps de alguma imagem de santo, fosse perto do retrato do Monsenhor Joo Soares.

Alcir Guedes redigiu desta forma o final do ltimo pargrafo da segunda reportagem de uma srie de quatro sobre Nh Joo: "Barbosa ajeitava a pessoa, colocava o maquino no ponto, avisava 'agora quieto', enfiava a cabea no pano preto e disparava uma lmpada que enchia de fumaa o ambiente: 'daqui a pouco entrego o retrato...'. Chegava o seguinte e repetia-se a cena por todo o dia, principalmente aos domingos e dias santos. Nos outros dias, o Barbosa tirava fotografias, com o mesmo processo, no Largo do mercado (...) Mais dois detalhes: Barbosa tinha um circo, cujos integrantes eram moradores do prprio bairro. O circo nunca saiu de Sorocaba. Barbosa tambm escreveu dois livros sobre Joo de Camargo, que se evaporaram nas mos do povo".

   
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